Daniela Almeida - Estado de Minas
Publicação: 07/12/2009 06:20 Atualização: 07/12/2009 07:23
O jornalista Fábio Oliva sentiu na pele o caos promovido em sua cidade por administrações corruptas. Morador de Januária, no Norte de Minas, viu seu pai morrer em uma ambulância que ficou sem combustível durante o trajeto para o hospital. Anos mais tarde, observou um sobrinho que passava mal ser encaminhado para a cidade vizinha porque o posto de saúde local não tinha nem mesmo luvas descartáveis para o atendimento médico. Foi assim que decidiu reunir alguns parentes e fundar a Associação Amigos de Januária (Asajan). Fábio é um exemplo entre muitos cidadãos que se organizam em pequenos grupos e associações para combater situações como essas, que ocorrem diariamente em várias cidades, resultado da corrupção de alguns governantes brasileiros.
Desde a fundação da Asajan, em 2004, sete prefeitos de
Januária foram afastados devido a crimes como nepotismo, desvio de verbas
públicas e improbidade administrativa. O primeiro investigado foi condenado
pelo uso indevido de R$ 375 mil do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da
Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb),
recurso do governo federal que deveria financiar a boa formação de crianças
em idade escolar no município. Fábio atualmente é chamado para dar palestras
no Brasil e já ajudou na criação de outras seis organizações não
governamentais (ONGs) e associações de cidades próximas a Januária.
“Contamos com a ajuda de uma rede profissionais da saúde, professores e
empresários. São pessoas que participam dos conselhos municipais ou trabalham
em órgãos públicos e, por se identificarem com a causa, fornecem informações
e documentos para a associação”, explica. A Asajan tem cerca de 30
integrantes.
Situação semelhante à de Januária pode ser encontrada em outras cidades
brasileiras. É o caso de Ribeirão Bonito, município de 12 mil habitantes no
interior de São Paulo, onde a intenção de alguns ex-moradores em promover o
desenvolvimento do lugar em que nasceram esbarrou no descaso do então
prefeito, no início da década. Em meio a várias tentativas de ajuda negadas,
surgiram denúncias de roubo de gasolina e de merenda escolar. Foi quando o
grupo percebeu que o problema não era a falta de recursos, mas sim o desvio
de verbas públicas. De tanto investigar, descobriram o envolvimento da
prefeitura com uma quadrilha de roubo de cargas que atuava na região.
“Aparecia uma nota fiscal de filé mignon e as cozinheiras contavam que
faltava comida nas escolas. Daí começamos a perceber que o novelo era muito
maior do que podíamos imaginar”, lembra Lizete Verillo, psicóloga e
atual diretora da Associação dos Amigos de Ribeirão Bonito (Amarribo).
Três anos e muito esforço depois, em 2002, conseguiram cassar o prefeito e um
vereador. Em 2007, cassaram mais quatro parlamentares da câmara e, no ano
passado, processaram um prefeito por improbidade administrativa. A história
rendeu um livro que está na quinta edição, com 125 mil cópias distribuídas. A
associação cresceu e a experiência acumulada na última década ajudou a formar
162 ONGs. O foco agora, segundo Lizete, é o acompanhamento do Legislativo e o
treinamento dessas associações. “Tivemos uma democracia interrompida
pela ditadura, estamos em processo de amadurecimento, reaprendendo o nosso
papel participativo, o que é irreversível. E isso, infelizmente, não se
aprende na escola.”
Festa
Foi por acaso que Fernando Fernandes encontrou uma série de irregularidades
em Sabinópolis, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Para organizar a Festa
do Rosário, ele reuniu amigos e levantou os recursos necessários por meio de
incentivos federais. Quando o dinheiro entrou na conta do município, no
entanto, o prefeito disse que aplicaria os dividendos em atividades que
poderiam render mais votos. Fernando, então, resolveu pedir a cassação do
prefeito. Como a Câmara Municipal tinha rádio comunitária, a notícia ganhou
as ruas e, claro, as rodas de conversas da cidade. Desse jeito informal foi
que surgiu a Associação Brasil Legal.
Com dinheiro próprio, a ajuda de advogados e muita disposição, Fernando já
moveu 15 ações, tornou um prefeito inelegível e desenvolveu 10 projetos de
lei que enviou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais e ao Congresso
Nacional. O objetivo agora é incluir no currículo escolar questões básicas da
Constituição, que estabelece no artigo 5º o dever do cidadão de combater a
corrupção. “Muitos querem mudar o político. Mas será que isso
adianta?”, questiona Fernando. “Eu acho que a saída é mudar a
postura da população. Precisamos acabar é com essa frase e o pensamento
‘não gosto de política’, isso sim.”
05/01/2009 @ 15:07:44
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Com a formação do conselho agenda ...
24/08/2008 @ 17:24:41
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